Godzilla Minus One é um épico à altura do icônico kaiju

Certamente se você soube desavisadamente a respeito de “Godzilla Minus One”, pode ter imediatamente pensado em se tratar: de uma nova produção norte-americana; de um blockbuster japonês feito apenas para dar mais robustez à franquia. Ambas as opções estão incorretas. “Minus One” não tem qualquer relação com os filmes da Warner (essa é a função da série da Apple TV+ “Monarch”) ou com “Shin Godzilla”. A superprodução nipônica traz uma abordagem bastante peculiar do gigantesco réptil mutante da Toho Co. que torna esse longa o mais interessante desde o início da franquia com o clássico absoluto “Godzilla”, de 1954.

A trama se passa logo após à Segunda Guerra Mundial e acompanhamos Shikishima, um piloto kamikaze cuja sobrevivência lhe faz carregar um forte sentimento de culpa, que se aprofunda após escapar de uma tragédia causada por um monstro gigante. Após abrigar uma mulher sem-teto e um bebê, ele embarca em uma missão pessoal, unindo-se a um extenso grupo de veteranos com o objetivo de finalmente derrotar essa ameaça que paira sobre o Japão, conhecida como Godzilla.

É sabido que Godzilla personifica o trauma causado nos japoneses pelos bombardeios que puseram fim à Segunda Guerra. “Minus One”, até como uma forma de homenagear a importância do kaiju, situa a trama imediatamente após o conflito, tendo um Japão arrasado como cenário e ainda precisando lidar com uma nova ameaça. Essa sensação de desolação é acertadamente trabalhada pelo diretor Takashi Yamazaki. Ele consegue tornar a parte mais focada nos personagens humanos uma das principal potência do filme, e não apenas um preenchimento de lacuna entre uma cena de destruição e outra, como vemos em outros filmes de monstrengos, inclusive as últimas incursões norte-americanas do Godzilla.

Yamazaki tem como referência não só, obviamente, o longa de 1954, mas outras histórias clássicas de monstro. É nítido a inspiração em “Tubarão”, assim como Moby Dick (que também serviu de inspiração para Steven Spielberg. É possível notar ainda claros acenos a mestres do cinema japonês como Akira Kurosawa e Yasugiro Ozu. O diretor, que também assina o roteiro, imprime um tom épico, ao mesmo tempo maduro e dramático à sua narrativa, sem deixar espaço para alívios cômicos. Ao mesmo tempo que destaca a resiliência e a capacidade de reconstrução do povo japonês, também cutuca as feridas dos pecados de guerra cometidos pelo país. O que seria um ponto frágil do filme (talvez o único) é que Yamazaki adiciona um peso desnecessário ao melodrama em determinados momentos.

O cineasta também é responsável pelos efeitos especiais, que chamam atenção pelo apuro em se tratando de uma produção sem verba hollywoodiana. Críveis e sofisticados, causam inveja em algumas produções da Marvel e da DC. Trata-se de um orçamento de US$ 15 milhões aproximadamente, com tomadas de CGI bastante superiores a de longas com centenas de milhões em custo é, de certa forma, uma humilhação. E a qualidade dos efeitos não dilui o espírito dos melhores filmes de Godzilla feitos com parcos recursos, mas que trabalhavam adequadamente o cenário de desespero. Toda a construção desse clima proporciona um temor pela criatura como há muito tempo não víamos.

O fio condutor da trama é o típico arco do herói improvável. Ryunosuke Kamiki interpreta Shikishima gerando a empatia com o espectador fundamental para o que fora pretendido pelo diretor. O elenco de coadjuvantes também é bastante eficiente, sobretudo Minami Hamabe. É uma mostra de que filmes de monstro não precisam necessariamente negligenciar as atuações.

Por fim, “Godzilla Minus One” é o filme à altura do icônico kaiju. Se a intenção era realizar uma homenagem ao septuagésimo aniversário do monstro, essa foi a melhor maneira. A produção consegue despertar a nostalgia, sem se apoiar nela, ao mesmo tempo que apresenta o monstrengo de forma atraente para a nova geração. Não à toa o filme tem arrasado a concorrência no Japão e se mantém em alta nas bilheterias norte-americanas. E fica a comprovação de que Hollywood pode até tentar, mas só os japoneses poderiam fazer um longa tão solene de Godzilla.

Godzilla Minus One

Godzilla Minus One
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Nota: 9/10 - Fantástico
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